Violência contra mulheres e meninas é pandemia das sombras

Home Fóruns Gênero Violência contra mulheres e meninas é pandemia das sombras

  • Este tópico não tem respostas.
Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #1748

    No Brasil, sete de cada 10 feminicídios ocorrem dentro de casa. Com o confinamento forçado pela Covid-19, somente no mês de março houve um aumento de 17% das denúncias de violência contra a mulher em todo o país, segundo o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que registra os casos pelos telefones 180 e 100. No Rio de Janeiro, este aumento foi de 50% em fevereiro, segundo o Governo do Estado.

    O aumento da violência  é uma das consequências mais graves que o coronavírus traz para as mulheres, mas não é a única. Por ser maioria nas profissões que estão na linha de frente no combate ao vírus, como a de enfermagem, e serem maioria nas tarefas de cuidados, as mulheres são mais propensas a se infectarem. Sem falar que nestas profissões de cuidados o trabalho em boa parte é informal, ou seja, ficam sem proteção social durante a quarentena forçada, o que também se constitui em situações de violência emocional.

    Em este artigo, publicado originalmente no site da ONU Brasil, a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, alerta que os números da violência cresçam ainda mais,  “com múltiplos impactos no bem-estar das mulheres, em sua saúde sexual e reprodutiva, em sua saúde mental e em sua capacidade de participar e liderar a recuperação de nossas sociedades e economia”. E afirma que, se não for tratada, essa pandemia sombria também aumentará o impacto econômico da COVID-19.

    Violência contra mulheres e meninas é pandemia das sombras

    Por Phumzile Mlambo-Ngcuka

    Com 90 países em confinamento, 4 bilhões de pessoas agora estão se abrigando em casa contra a infecção global do novo coronavírus. É uma medida protetora, mas traz outro perigo mortal. Vemos uma pandemia crescente nas sombras, a da violência contra as mulheres.

    À medida que mais países relatam aumento das infecções e bloqueios, mais linhas de ajuda e abrigos para violência doméstica em todo o mundo estão relatando pedidos crescentes.

    Em Argentina, Canadá, França, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, autoridades governamentais, ativistas dos direitos das mulheres e parcerias da sociedade civil denunciaram crescentes denúncias de violência doméstica durante a crise e aumento da demanda por abrigos de emergência.

    As linhas de apoio em Singapura e Chipre registraram um aumento de chamadas em mais de 30%. Na Austrália, 40% de trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente em uma pesquisa de New South Wales relataram um aumento de pedidos de ajuda, porque a violência está aumentando em intensidade.

    O confinamento está promovendo tensão e tem criado pressão pelas preocupações com segurança, saúde e dinheiro. E está aumentando o isolamento das mulheres com parceiros violentos, separando-as das pessoas e dos recursos que podem melhor ajudá-las.

    É uma tempestade perfeita para controlar o comportamento violento a portas fechadas. E, paralelamente, à medida que os sistemas de saúde estão chegando ao ponto de ruptura, os abrigos de violência doméstica também estão atingindo a capacidade máxima, o déficit de serviços tem piorado quando os centros são reaproveitados para serem usados como resposta adicional à COVID-19.

    Mesmo antes da existência da COVID-19, a violência doméstica já era uma das maiores violações dos direitos humanos. Nos 12 meses anteriores, 243 milhões de mulheres e meninas (de 15 a 49 anos) em todo o mundo foram submetidas à violência sexual ou física por um parceiro íntimo.

    À medida que a pandemia da COVID-19 continua, é provável que esse número cresça com múltiplos impactos no bem-estar das mulheres, em sua saúde sexual e reprodutiva, em sua saúde mental e em sua capacidade de participar e liderar a recuperação de nossas sociedades e economia.

    A ampla subnotificação de formas de violência doméstica já havia tornado um desafio a coleta de dados e respostas, menos de 40% das mulheres vítimas de violência buscavam qualquer tipo de ajuda ou denunciavam o crime.

    Menos de 10% das mulheres que procuravam ajuda, iam à polícia. As circunstâncias atuais tornam os relatórios ainda mais difíceis, incluindo limitações no acesso de mulheres e meninas a telefones e linhas de ajuda e interrupções nos serviços públicos de polícia, justiça e serviços sociais.

    Essas interrupções também podem comprometer os cuidados e o apoio de que as sobreviventes precisam, como tratamento clínico de estupro, saúde mental e apoio psicossocial.

    Isso também alimenta a impunidade de agressores. Em muitos países, a lei não está do lado das mulheres; um em cada quatro países não possui leis que protejam especificamente as mulheres da violência doméstica.

    Se não for tratada, essa pandemia sombria também aumentará o impacto econômico da COVID-19. O custo global da violência contra as mulheres já havia sido estimado em aproximadamente 1,5 trilhão de dólares. Esse número só pode aumentar à medida que a violência aumenta agora e continua após a pandemia.

    O aumento da violência contra as mulheres deve ser tratado com urgência com medidas incorporadas nos pacotes de apoio econômico e estímulo que atendam a gravidade e a escala do desafio, e reflitam as necessidades das mulheres que enfrentam múltiplas formas de discriminação.

    O secretário-geral da ONU apelou a todos os governos a fazer da prevenção e reparação da violência contra as mulheres uma parte essencial de seus planos nacionais de resposta à COVID-19.

    Abrigos e linhas de ajuda para mulheres devem ser considerados um serviço essencial para todos os países, com financiamento específico e amplos esforços para aumentar a conscientização sobre sua disponibilidade.

    As organizações de mulheres e comunidades de base têm desempenhado um papel essencial na prevenção e resposta a crises anteriores, e precisam ser fortemente apoiadas em seu atual papel de linha de frente, inclusive com financiamento que permaneça a longo prazo.

    As linhas de ajuda, o apoio psicossocial e o aconselhamento online devem ser aprimorados, usando soluções baseadas em tecnologia como SMS, ferramentas e redes online para expandir o apoio social e alcançar mulheres sem acesso a telefones ou Internet.

    Os serviços policiais e de justiça devem se mobilizar para garantir que os casos de violência contra mulheres e meninas tenham alta prioridade, sem impunidade para os autores.

    O setor privado também tem um papel importante a desempenhar, compartilhando informações, alertando a equipe sobre os fatos e os perigos da violência doméstica e incentivando medidas positivas, como compartilhar responsabilidades de cuidados em casa.

    A COVID-19 está nos testando de maneiras que a maioria de nós nunca experimentou anteriormente, fornecendo choques emocionais e econômicos, contra os quais estamos lutando para superar.

    A violência que está emergindo agora como uma característica sombria dessa pandemia é um espelho e um desafio aos nossos valores, nossa resiliência e humanidade compartilhada.

    Devemos não apenas sobreviver ao coronavírus, mas emergir renovadas, com as mulheres como uma força poderosa no centro da recuperação.

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Você deve fazer login para responder a este tópico.